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Portabilidade atrai somente 0,5% dos assinantes das teles
Talita Moreira, de São Paulo
Anna Carolina Negri / Valor
Alcides Troller Pinto, da GVT: "O aspecto positivo é que estamos
atraindo clientes com perfil de consumo acima da média"
Passados dois meses desde a implantação da portabilidade
numérica em todo o Brasil, 1 milhão de pessoas usufruiu
do mecanismo, que permite mudar de operadora de telefonia sem alterar o
número do telefone.
Embora pareça significativo, o volume alcançado
até agora é pequeno. Corresponde a apenas 0,51% do total
de 195,6 milhões de linhas telefônicas fixas e
móveis existentes no país. A quantidade também
é baixa se consideradas as expectativas que antecederam a
adoção desse recurso no mercado brasileiro.
A ClearTech, empresa que presta serviços à ABR Telecom -
responsável pela administração das
transações de portabilidade - estimava que haveria entre
400 mil e 600 mil migrações mensais de usuários
entre as operadoras a partir deste ano. Os números também
estão muito distantes daqueles que foram captados numa sondagem
feita pela empresa de pesquisas Yankee Group em 2007, segundo a qual
46% dos entrevistados disseram que trocariam de operadora fixa e 48%
mudariam de prestadora de telefonia móvel se pudessem manter o
número de telefone. O levantamento foi feito em São
Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
"A pesquisa mostrava que a intenção de troca era alta,
mas já nessa época não achávamos que os
números seriam tão fortes", diz Júlio
Püschel, analista sênior do Yankee Group para a
América Latina.
A portabilidade foi introduzida gradualmente no Brasil entre setembro
do ano passado e março deste ano, partindo das regiões
menos populosas até chegar à Grande São Paulo.
"É um processo gradativo. Não houve, num primeiro
momento, uma divulgação ampla", afirma José
Moreira, presidente da ABR Telecom. Mesmo assim, ele faz uma
"avaliação muito positiva" da implantação
do mecanismo.
No mês passado, a ABR realizou uma campanha publicitária
para divulgar o direito à portabilidade, conforme previsto no
documento da Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel) que regulamenta o mecanismo. A empresa foi escolhida pelo
órgão regulador para centralizar um banco de dados sobre
os clientes de todas as operadoras e coordenar as
migrações de usuários entre as empresas.
Nem todos os pedidos de transferência são
concluídos. Alguns assinantes desistem por receber uma
contraproposta da operadora atual. Outros, porém, esbarram em
divergências nos dados cadastrais da linha telefônica, o
que dificulta o processo. Para minimizar esses casos, a Anatel
estabeleceu novas regras, na semana passada, para permitir que os
usuários de celulares pré-pagos possam migrar mesmo se
houver discrepância de informações.
"O movimento é muito incipiente. À medida que a
população tomar mais conhecimento, a adesão pode
acelerar", avalia o diretor financeiro da Net, João Elek.
Mas há outros fatores que ajudam a compor o cenário. Um
deles é a preponderância dos celulares - 154
milhões - no total de linhas telefônicas no país. E
a telefonia móvel segue uma lógica própria:
é comum as pessoas terem chip de várias operadoras para
aproveitar a melhor tarifa de cada uma delas.
Em paralelo, a forte competição no setor já
estimulava as migrações de clientes mesmo antes da
portabilidade. Historicamente, um terço da base de assinantes de
celular do país muda de operadora a cada ano, observa Rogerio
Takayanagi, diretor de marketing da TIM. "O número de telefone
é importante, mas não tanto."
É uma situação diferente da que caracteriza a
telefonia fixa. Aí sim atribui-se um valor maior à
numeração, herança dos anos de Telebrás,
quando o telefone era considerado um bem. A concorrência no
segmento, porém, é limitada às grandes cidades. A
maior parte dos municípios é atendida somente pela
concessionária local (Telefônica no Estado de São
Paulo, e Oi no restante do país). Por isso, nem todos os
assinantes de telefonia fixa podem recorrer à portabilidade se
estiverem insatisfeitos com sua prestadora.
Operadoras fixas e móveis também reconhecem que os
consumidores têm a sensação de que os
serviços prestados por todas elas são parecidos e deixam
a desejar. "Tem muito disso, o que é culpa da própria
indústria, que descambou para a guerra de preços", diz
Takayanagi. Para contornar esse obstáculo, TIM e Claro permitem
que os clientes em potencial testem seus serviços por três
meses sem pagar a franquia de uso do celular nem arcar com multa se
desistirem de migrar.
Entretanto, nenhuma empresa animou-se a lançar
promoções e campanhas exclusivamente para atrair
assinantes na portabilidade, já que os números são
pequenos. Na Vivo, menos de 5% dos novos assinantes chega à
operadora por meio desse recurso, afirma o presidente da empresa,
Roberto Lima.
Algumas operadoras fazem mistério sobre o fluxo de entrada e
saída de clientes por meio da portabilidade - especialmente as
empresas de celular. Na telefonia fixa, ganhadores e perdedores
são mais facilmente identificáveis. Como as
concessionárias são dominantes em suas áreas de
atuação, é natural que percam mais que as rivais.
Companhias "novatas" como GVT e Net são as que mais têm
tirado proveito do serviço.
A GVT atraiu 115 mil assinantes e foi o destino de 60% das
migrações feitas via portabilidade nos 80
municípios onde atua, diz o vice-presidente de marketing e
vendas, Alcides Troller Pinto. "Mas a gente cresceria mesmo sem esse
recurso. O aspecto positivo é que, com a portabilidade, estamos
atraindo clientes com perfil de consumo acima da média."
Entre as concessionárias, o mecanismo é apenas mais um
elemento na tendência já existente de
redução no número de linhas fixas. Nas
demonstrações financeiras do primeiro trimestre, a Oi
informou que atraiu 25 mil assinantes de celular, mas na telefonia fixa
o saldo foi negativo em 118,7 mil linhas.
A Telefônica não revelou números e, até o
fechamento desta edição, não atendeu aos pedidos
de entrevista. Em seu balanço, a operadora afirmou que os
volumes não são relevantes, mas informou que
"reforçou seus esforços nos planos de
fidelização e retenção de clientes". (Valor Econômico Online)
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