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6/11/2008
A nova ordem geográfica da indústria mundial de celulose e papel
Por Geraldo Ferreira*
O cenário atual do mercado brasileiro de papel e celulose
demonstra que nossa indústria está cada vez mais voltada
à produção de celulose, deixando sua
transformação em papel como uma atividade
secundária, tendo em vista, principalmente, a maior
rentabilidade proporcionada pela produção da primeira. Ao
seguir este caminho, o Brasil, na realidade, segue sua natural
vocação dentro dessa indústria, alinhando-se a uma
tendência/movimento mundial que indica a
especialização como um caminho para o futuro dos
países/blocos econômicos regionais.
Isso vem acontecendo em vários setores da economia e não
poderia ser diferente no segmento de papel e celulose, onde cada bloco
econômico assumirá, mais dia menos dia, um papel
específico e atuante que contribuirá para a
evolução da indústria.
Nesse cenário, caberá à América Latina,
especialmente ao Brasil, líder inconteste da região,
concentrar-se na produção de fibras, tornando-se um
celeiro para a produção de celulose. Já os
países da Europa, que historicamente posicionaram-se como um
centro de desenvolvimento tecnológico do setor, se
consolidarão como os principais fornecedores das cada vez mais
modernas máquinas que viabilizam a transformação
das fibras em celulose, e, desta em papel.
A América do Norte, em especial os Estados Unidos, por seu
potencial financeiro - mesmo com a grave crise que enfrenta atualmente
- se firmará como a grande financiadora da indústria,
além de fornecedora dos softwares para todos os tipos de
equipamentos do setor. Completando a nova ordem geográfica da
indústria mundial de papel e celulose, temos a Ásia, que
pelo enorme potencial de consumo da região e também por
sua vocação fabril, se fortalecerá como a grande
região produtora de papel, abastecendo todo o mundo.
Mas como é possível afirmar que o Brasil será essencialmente um produtor de celulose?
São vários fatores, entre os quais podemos destacar o
perfil adequado de nosso solo e clima. Pegando emprestado um termo
muito usado na produção de vinhos na Europa, o Brasil tem
"terroir" para a produção de celulose, reunindo uma
séria de características - amplas áreas para
cultivo, fertilidade do solo e bom índice pluviométrico -
que outros países não tem. Portanto, não é
por acaso que nosso País já se posiciona como um dos
principais produtores mundiais dessa matéria-prima.
Em contraponto a esta vantagem que nos credencia à
produção de celulose, também temos, infelizmente,
alguns problemas e deficiencias que apenas reforçam este "papel"
que o Brasil deve assumir: baixa demanda interrna e regional por papel
em comparação ao mercado asiático, por
exemplo; baixo potencial de crescimento do consumo de papel em
toda América Latina; sérios problemas de infra-estrutura
(portos, aeroportos, hidrovias, estradas...); e o chamado custo Brasil,
representado por nossa estrutura tributária arcaica e pela
grande burocracia que ainda enfrentamos.
Somados, esses pontos tornam inviável para nosso País, e
mesmo para a América Latina, a ambição de ser um
grande produtor de papel. Aliado a isso, vale reforçar novamente
que, nos dias atuais, a celulose se mostra como um produto muito mais
atrativo para a indústria local pela margem maior de lucro que
proporciona em comparação com a produção de
papel.
Além disso, tenho convicção que
especialização será benéfica para a
indústria brasileira e latino-americana, que passará a
ter maior foco no negócio e se tornará cada vez mais
importante no fornecimento ao mercado mundial.
* Geraldo Ferreira
é gerente geral para o Brasil da Asia Pulp and Paper, uma das
maiores empresas do mundo na área de Papel e Celulose.
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